Entrevista a Cláudia Gomes
Num universo superior a 3000 associados, mais de metade da rede da Keller Williams Portugal é composta por mulheres.
Na equipa executiva, também estão em maioria – 60% de mulheres lideram 3 grandes áreas: Expansão e Crescimento, Formação e Marketing.
A nível global, a Keller Williams foi distinguida pela Forbes e pela Franchise Business Review e Glassdoor como uma empresa que defende e promove as mulheres no mercado de trabalho.
Quem é Cláudia Gomes e o que a levou a ingressar no mundo da Imobiliária?
Desde cedo, fui lançada às responsabilidades da vida adulta. Aos 14 anos, comecei a trabalhar devido a algumas dificuldades familiares. Iniciei a minha jornada profissional numa padaria e, posteriormente, num mercado de retalho de venda de sapatos, especificamente na Colômbia, no La Vie. Dos 14 aos 19 anos, percebi que estava a fazer mais do que maior parte das pessoas da minha idade faziam e, sobretudo, encontrava-me estagnada num trabalho com um salário comum.
Aos 19 anos, após uma extensa pesquisa, descobri que havia uma procura grande por consultores imobiliários. Foi aí que decidi mudar de rumo e mergulhar nesse novo desafio. Após uma entrevista, fui contratada por uma mediadora internacional, onde permaneci por cinco anos. Tanto eu como o seu marido Mariano, que trabalhava na mesma empresa, decidimos abrir uma mediadora regional juntamente com 3 pessoas.
Logo percebemos que ser uma pequena empresa tinha os seus desafios, então decidimos juntar-nos à KW – Keller Williams, uma decisão que já havíamos considerado antes, porque nos foi aconselhado na antiga empresa. Assim, começamos o nosso próprio negócio na KW, juntamente com o João Vieira, colega que veio também dessa antiga empresa.
No primeiro ano, eu, o Mariano e o João decidimos trabalhar como “solo agent” para entender melhor a dinâmica da marca e os desafios enfrentados pelos consultores na KW. O ano passado foi nosso primeiro ano a trabalhar como equipa.
Como se tornou líder da Equipa nº 1 nacional na sua empresa? Quais foram os principais desafios que enfrentou ao longo do caminho?
No primeiro ano, participamos da nossa primeira "Family Reunion" em Portugal, no Algarve, e na entrega de prémios da Keller Williams, percebemos que nenhum consultor tinha atingido o patamar de "Millionair State Agent" ou "Mereia", o comum dito em Portugal. No segundo ano, já como equipa, voltamos à "Family Reunion" e ainda não tinha sido alcançado esse feito. Na altura tínhamos 3 meses de equipa e decidimos então ampliar a nossa equipa para cinco novos membros, totalizando oito, incluindo nós três. Dos 8 consultores, 7 começaram a ser produtivos e conseguimos alcançar o nosso objetivo no dia 30 de dezembro, às 19h, tornando-nos os primeiros "Millionair State Agent" em Portugal. Desde o início, o nosso objetivo era desafiar os limites e fazer algo inédito. Acredito que estar em um ambiente onde há pessoas que nos impulsionam, permite-nos desenvolver mais rapidamente.
Como percebe o papel das mulheres no setor imobiliário e que dificuldades/ou se surgiram dificuldades ao longo dos 9 anos que trabalha neste ramo?
As mulheres no setor imobiliário são verdadeiras inspirações. Na KW, por exemplo, muitas mulheres estão entre os Top 20. Tanto na KW quanto em outras mediadoras, as mulheres são reconhecidas e têm tido um grande destaque nos últimos anos. Desde que entrei neste ramo, sempre senti que as mulheres são bem-recebidas e, às vezes, até têm certas facilidades que os homens não têm.
Sinto-me incrivelmente apoiada por dois homens da minha equipa – o meu marido, Mariano e o João Vieira - que sempre estiveram ao meu lado, mesmo com algumas divergências, mas sempre respeitando as características individuais de cada um. No fim do dia, seja homem ou mulher, o que realmente importa é o objetivo final.
Quanto à liderança, acredito que ser uma mulher líder traz uma grande vantagem e que uma equipa com mulheres tem uma voz muito mais forte e poderosa. Isso é algo que tenho observado ao longo dos últimos anos e que realmente acredito ser verdadeiro.
Como equilibra as suas responsabilidades profissionais com outros aspectos da sua vida?
Sinceramente, não tenho uma resposta para isso. No meu ramo, passo a maior parte do meu dia a investir na minha profissão. Além de vender casas, estou constantemente presente e a aconselhar os meus clientes.
Além de ser consultora imobiliária, sou mãe, mulher e dona de casa. O meu dia começa com o cuidado do meu filho e uma ida ao ginásio. Posso dizer que meu dia-a-dia é um verdadeiro turbilhão de emoções, com alguns dias começando às 6:30 ou 7 horas da manhã e terminando por volta da 1 hora da manhã.
Às 9 horas, começamos o dia com uma reunião em equipa e, ao longo do dia, lidamos com visitas, propostas, reuniões com clientes, escrituras, contratos de promessas e muito mais.
É um desafio e tanto, mas tenho a sorte de contar com o apoio do meu parceiro, tanto em casa como no trabalho. Ambos compartilhamos as responsabilidades de ser pais e consultores imobiliários. Acredito que os homens têm assumido um papel cada vez mais importante em ajudar as mulheres no dia-a-dia doméstico.
O facto de trabalharem os dois na mesma área sem garantia de rendimento foi um risco pensado e calculado, mas não impediu a decisão?
Antes de ingressar no ramo imobiliário, eu estava prestes a ser efetivada no meu antigo emprego, e a minha família encorajava-me a não o abandonar devido à estabilidade financeira que ele proporcionava. No entanto, afirmo que optar por mudar foi uma das melhores decisões que já tomei na minha vida, apesar dos primeiros seis meses terem sido bastante desafiadores, já que não consegui gerar renda durante esse período. No entanto, encarei essa fase como uma oportunidade de aprendizado.
Após esses seis meses iniciais, começamos a ter rendimentos em casa, pois a nossa fonte de renda provém do nosso trabalho árduo e dedicação. Acredito firmemente que o esforço e a dedicação são fundamentais para o sucesso em qualquer empreendimento.
Acredita que há uma mudança em curso em termos de igualdade de género na indústria imobiliária? Em caso afirmativo, quais são os sinais dessa mudança?
Neste momento, sinto que não há distinção de género no ambiente em que trabalho. Dentro da KW, temos equipas em que as líderes são mulheres e isso é igualmente verdadeiro a nível nacional. Não há diferenciação entre mulheres e homens e desde que entrei neste ramo nunca senti qualquer tipo de discriminação.
Na minha experiência, as mulheres até parecem ter algumas facilidades e são tratadas com mais delicadeza. No entanto, acredito que isso não se traduz em uma diferenciação negativa, mas sim em reconhecimento das suas capacidades e talentos.
Para as mulheres que têm medo ou não se sentem capazes de procurar posições de liderança, qual seria o seu conselho para superar esses sentimentos?
O conselho que dou às mulheres na sociedade atual que desejam tornar-se consultoras imobiliárias é exatamente o que procuro nas pessoas que desejo para a minha equipa. Ser consultor imobiliário vai muito além de simplesmente querer ganhar dinheiro ou vender casas. É necessário compreender todos os aspetos do ramo imobiliário.
Qualquer pessoa, seja mulher ou homem, que deseje ingressar neste ramo deve ter uma vontade genuína de aprender, pois é uma área em constante evolução e mudança. Todos os dias há algo novo para aprender. É crucial ter um objetivo claro traçado para si mesmo, pensar a longo prazo e trabalhar de forma consistente para alcançá-lo.
As mulheres precisam de marcar a sua presença e sentir orgulho em serem consultoras imobiliárias. Devem estar dispostas a dedicar-se em tempo integral e a investir em si mesmas. Na KW, oferecemos formação diária e semanalmente. Todos os novos membros passam por um curso abrangente que cobre todos os processos do ramo imobiliário ao longo de um mês. Este compromisso com a formação contínua é essencial para o sucesso no setor.
Qual é a visão sobre o mercado imobiliário atualmente na Madeira?
Na minha experiência nos últimos dois anos, acredito que a Madeira é uma mais valia no mercado e altamente valorizada nos Estados Unidos. Durante uma “Family Reunion” internacional em Las Vegas, percebi que muitas pessoas já conheciam a Ilha da Madeira e que ela tem sido um grande atrativo para estrangeiros e emigrantes.
Nos últimos anos, o valor dos imóveis tem aumentado devido à alta procura e à baixa oferta. A ilha tem passado por um significativo desenvolvimento, impulsionado pelo aumento da procura.
No entanto, tenho notado uma mudança no tempo médio de venda dos imóveis nos últimos dois anos. Enquanto antes demoravam cerca de 1 a 2 meses para vender, agora levamos entre 5 a 6 meses. Isso significa que o tempo de venda vai se prolongando e que os valores se estão a ajustar, mas continuo a acreditar que não estamos perante uma queda no mercado imobiliário da região.
Na Ilha da Madeira, tanto eu quanto outros consultores imobiliários testemunhamos um crescimento significativo em termos de valores e resultados. A Madeira foi a única região de Portugal, incluindo o continente, que registrou esse crescimento notável.
A procura continua a aumentar, mas a oferta também.
Nos últimos anos, temos testemunhado um aumento significativo no valor global das vendas devido à alta demanda e à ampliação da oferta. Especificamente, tenho observado um aumento notável no valor das propriedades na Calheta e Ponta do Sol. Anteriormente, era impensável vender casas nessas áreas devido aos valores muito baixos. No entanto, hoje em dia, essas casas vão sendo valorizadas, pois estão localizadas em zonas que são mais procuradas por estrangeiros. Essa mudança de perspetiva tem impulsionado os valores das propriedades nessas áreas, tornando-as mais atrativas para o mercado.
Quais são as zonas que tem mais procura?
Na costa Sul, devido à sua elevada procura, os preços tendem a ser mais elevados. Isso significa que clientes que inicialmente procuravam propriedades com valores mais baixos são frequentemente redirecionados para zonas mais rentáveis para investimento, seja para habitação própria, alojamento local ou arrendamento a longo prazo. Além disso, pessoas com limitações financeiras para investir na costa Sul consideram, agora, a costa Norte, uma tendência que não era tão comum há quatro anos atrás.
A Madeira Golden Home não se concentra apenas em uma área específica da ilha, realizamos vendas em diversos pontos. Essa dispersão de vendas reflete uma mudança no padrão de investimento, com mais pessoas optando por investir em diferentes áreas da ilha.
Acredito que nos próximos anos veremos um aumento da população na costa Norte, devido aos fatores mencionados anteriormente. Essa mudança é um reflexo das tendências atuais do mercado imobiliário na Madeira.
E isso é um fator importante para o desenvolvimento da Madeira?
Claro que sim. Um exemplo disso é Porto Moniz, especialmente a zona da Santa, que costumava ser desabitada, com apenas uma população idosa local. Nos últimos dois anos, temos realizado algumas vendas nessa área e notamos um aumento significativo de pessoas que se vão mudando para lá. Isto deve-se ao fato de que essas áreas são propícias para o agroturismo, por exemplo. Essa tendência de desenvolvimento e revitalização de áreas antes negligenciadas é um fator importante para o crescimento e progresso da Madeira.
Trabalham com muitos clientes estrangeiros e mercado regional?
Como equipa, conseguimos fazer uma divisão eficiente dos nichos de cada um dos consultores. Temos três consultores dedicados ao nicho de luxo, lidando principalmente com propriedades acima de 1 milhão e atendendo principalmente clientes estrangeiros. Enquanto isso, os outros consultores concentram-se mais no mercado regional ou nacional. Eu, pessoalmente, foco-me mais no mercado madeirense.
Com essa organização, somos capazes de abranger uma ampla gama de clientes e propriedades. Cada membro da equipa contribui com as suas habilidades e especializações, permitindo-nos fornecer um serviço abrangente e eficaz a todos os nossos clientes.
A vossa equipa cobre todos os extratos sociais?
Claro, porque todos os clientes são importantes para nós. Uma das filosofias de formação da Madeira Golden Home é tratar todos os clientes de forma igual, independentemente do valor da casa que estão a comprar.
É óbvio que uma transação de um milhão de euros implica uma abordagem diferente daquela para uma casa de valor mais baixo. Por isso, organizamos a nossa equipa de forma a garantir que cada consultor possa atender às necessidades específicas dos seus clientes. Desta forma, a equipa complementa-se e cobre todas as áreas do mercado imobiliário.
Dentro da nossa equipa, há flexibilidade para trocar de clientes, caso estes não se adequem ao perfil do consultor imobiliário. Acreditamos que é essencial que o consultor esteja alinhado com o cliente para garantir uma experiência positiva para ambas as partes.
Atualmente, o papel do consultor é mais “humano”, mais próximo do cliente.
O objetivo da Madeira Golden Home não se resume simplesmente a vender casas e receber comissões. O nosso objetivo principal é garantir a satisfação do cliente com a sua compra, que é um investimento para toda a vida.
Percebemos que o ramo imobiliário está a tornar-se cada vez mais profissional. Para a MGH, estabelecer e manter uma relação sólida entre cliente e consultor é fundamental. Reconhecemos que para muitas pessoas, comprar uma casa é a realização de um sonho e encaramos os nossos clientes como indivíduos que fazem um investimento significativo nas suas vidas, não apenas como fontes potenciais de receita. Essa abordagem destaca uma diferença marcante em relação ao que era há 10 anos atrás quando entrei no ramo.
No ponto de vista de uma madeirense, o que a Cláudia gosta de fazer que aconselha aos seus clientes?
Adoro estar próxima ao mar, caminhar à beira-mar e estar em contato com a natureza. Desde os meus 8 anos, fui escuteira e sempre mantive uma conexão especial com a natureza. Acredito que a ilha onde vivo oferece uma variedade incrível de paisagens e locais deslumbrantes para visitar, como as levadas e os picos. Tenho um carinho especial pela zona do Paul do Mar, que é muito ensolarada e acolhedora.
Durante o verão, os arraiais são momentos muito agradáveis. Na verdade, não acredito que haja uma época “menos boa” para visitar a Madeira. Qualquer altura do ano é uma oportunidade maravilhosa para desfrutar das belezas naturais e das atividades culturais que a ilha tem a oferecer.
O turista que nos visita, por vezes, conhece melhor a Madeira do que os residentes. O papel consultor é também aconselhar e dar a conhecer a ilha?
Na Madeira Golden Home (MGH), adotamos uma abordagem única ao trabalhar com clientes. No primeiro dia de interação, dedicamos todo o dia a acompanhar o cliente para explorar toda a ilha. Acreditamos que é fundamental para o cliente conhecer o clima, a região e as distâncias entre os pontos de interesse. Após essa experiência inicial, o cliente tem a oportunidade de decidir suas duas áreas de preferência. Esta etapa é crucial para garantir que o cliente se sinta verdadeiramente bem e confortável com sua decisão, permitindo uma experiência mais personalizada e satisfatória.
Quando o cliente estrangeiro já tem definido a zona que quer a casa, mas não encontra a casa que quer, conseguem arranjar soluções e “motivar” para ir para outra zona?
Existem diversas áreas na Madeira onde a qualidade de vida é excecional, e por isso podemos orientar os clientes para as zonas de interesse mais adequadas às suas necessidades. No entanto, é crucial que eles conheçam essas áreas antes de visitarem as propriedades. É conhecimento prévio para garantir que os clientes façam uma escolha informada e se sintam verdadeiramente satisfeitos com a sua decisão.
Temos tido clientes que vieram à ilha, exploraram as opções disponíveis, mas acabaram por não comprar uma casa. No entanto, é gratificante quando esses clientes expressam apreço pelo nosso serviço e afirmam que planeiam voltar no futuro para comprar connosco. Isso demonstra a confiança e o valor que atribuem ao nosso trabalho, o que é muito gratificante para nós.
Quais os planos de Cláudia a longo prazo?
O meu objetivo é alcançar os 40 anos sem precisar trabalhar as 12 ou 13 horas diárias que atualmente dedico ao trabalho. Quero assegurar que, até lá, tenha um certo número de investimentos que me proporcionem um retorno financeiro. Em vez de estar na linha de frente lidando diretamente com os clientes, pretendo estar nos bastidores, a orientar e formar os consultores que, eventualmente, farão parte da equipa. O objetivo final é tornar-me investidora, mantendo a minha equipa e garantir que todos continuem a crescer profissionalmente.
Agradecimento
Cláudia acredita firmemente que ter um objetivo claro e definido torna mais fácil alcançar a meta. Ela oferece o conselho tanto para mulheres quanto para homens que desejam tornar-se investidores: não se acomodem e sempre vejam as coisas a longo prazo. Essa mentalidade de planeamento e visão de futuro é essencial para o sucesso no mundo dos investimentos.
A MIM agradece a disponibilidade da Cláudia Gomes.