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Entrevista a Belinda Cipriano

Conselheira das Comunidades Madeirenses na Austrália 

22-09-2025
MAG
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Por acontecimento do Fórum Madeira Global e do Encontro do Conselho da Diáspora Madeirense, realizado no Funchal, no passado mês de julho, a MIM teve a oportunidade de conversar com a Conselheira das Comunidades Madeirenses na Austrália, Belinda Cipriano e conhecer melhor esta jornalista, autora e dinamizadora de eventos que juntam a comunidade Madeirense em Perth e a comunidade local.

Entrevista a Belinda Cipriano

Sobre Belinda Cipriano:

‘Os meus pais emigraram há cerca de 50 anos. Primeiro, o meu pai partiu para o Brasil e, mais tarde, para a Austrália. A minha mãe veio diretamente da Madeira para a Austrália, embora ainda não se conhecessem nessa altura.

Curiosamente, foi já na Austrália que se conheceram e acabaram por casar. A primeira vez que vim à Madeira tinha apenas 9 meses; a minha irmã mais velha tinha 3 anos. Muitos anos depois, regressei à Madeira com 18 anos para frequentar o ensino secundário. A minha irmã mais nova, então com 16 anos, veio comigo, mas a mais velha não. Foi nesse período que me apaixonei pela ilha, em especial pela Madalena do Mar, de onde provêm as minhas raízes.

A minha irmã mais velha estava já na universidade e, infelizmente, não conseguiu acompanhar-nos. Um ano mais tarde, faleceu a minha última avó viva – a avó que é a grande inspiração de tudo o que faço. A minha ligação à Madeira começou precisamente com ela. Em 1998, eu, a minha irmã mais velha e a mais nova voltamos à ilha e vivemos durante um ano na casa da nossa avó. Estávamos muito próximas dos nossos primos e, nesse período, vivenciamos intensamente a cultura e a vida madeirense.

Após esse ano, regressei à Austrália e prossegui a minha carreira como jornalista, mas nunca mais estive tanto tempo longe da Madeira. Em 2017, ao completar 40 anos, decidi regressar à ilha. Desde então, envolvi-me cada vez mais na comunidade portuguesa, motivada pelo amor que nutro tanto pela Madeira como pela cultura portuguesa em geral.

Percebi que existia uma diferença geracional: a geração mais velha participava ativamente em festas e eventos, enquanto a mais nova se mostrava mais reservada e pouco participativa. Senti vontade de alterar essa realidade e comecei a envolver-me mais de perto.

Em 2022, o nosso cônsul honorário, John da Silva, contactou-me e convidou-me a assumir funções como Conselheira das Comunidades da Austrália. O meu maior objetivo é incentivar a participação da próxima geração, pois a maioria vem à Madeira, aproveita as férias, mas não cria uma ligação emocional com a ilha: não frequenta os eventos, não faz voluntariado, não se integra verdadeiramente. Estou a dar o meu melhor para mudar isso. Apoio a Associação de Mulheres, apresento todos os eventos organizados por esta entidade e, em novembro, serei também apresentadora da cerimónia “Portuguese Citizen of the Year Awards”.

A organização de eventos faz parte da minha vida desde sempre, quer na carreira de jornalista, quer no trabalho em Relações Públicas e Marketing. Sempre gostei desta área, mas procurei sempre associá-la a uma vertente solidária. A minha irmã foi diagnosticada com cancro da mama, e a partir daí aproximei-me muito da fundadora de um centro de apoio às mulheres com esta doença, no oeste da Austrália. Infelizmente, a fundadora faleceu no ano passado, vítima de um tumor cerebral. Fiz-lhe a promessa de continuar a angariar fundos para a sua fundação.

Começámos de forma modesta, mas este ano o evento cresceu imenso – esgotámos tudo em apenas três dias – e para o próximo já temos lista de espera.

Regressei à Madeira com o propósito de trazer novas ideias. Tenho vários projetos delineados e escolhi cuidadosamente as pessoas com quem quero colaborar. O objetivo é expandir o trabalho desenvolvido, não só em prol das mulheres, mas também para envolver a próxima geração, incluindo os homens.’

Entrevista a Belinda Cipriano

Entrevista

O que acha em relação à nova geração que não costuma participar nos eventos?

Não considero que seja culpa de ninguém. Na Austrália, temos um comité extraordinário, composto pela geração da minha mãe, que sempre se disponibilizou de forma voluntária e que tem realizado um trabalho notável.

Organizamos eventos que combinam gastronomia com animação musical, contando com artistas madeirenses locais como o Miro Freitas, o Márcio Amaro e o Pedro Cruz. Nestas ocasiões, o clube enche-se tanto com a geração mais velha como com a mais nova. 

Tivemos também a atuação da Mariza, que atraiu imensas pessoas mais jovens e esgotou completamente o espaço. Foi muito gratificante ver essa adesão. Trata-se de uma artista internacional, mas surpreendeu-nos a quantidade de jovens presentes.

O Miro, em particular, tem uma ligação especial com a Austrália, já que tem lá família e é muito acarinhado pela comunidade. Ainda assim, gostaria que mais artistas pudessem atuar na Austrália, porque acredito que ajudaria a aproximar gerações.

Os eventos também atraem australianos sem ligações à Madeira? 

No caso da Mariza, sim. Havia muitos presentes que não falavam português, mas que são apaixonados pelo fado. Quanto aos restantes artistas, infelizmente isso não se verificou.

Em breve, vamos inaugurar um novo clube português na Austrália Ocidental. O atual, com várias décadas de existência, foi fundado pelo meu pai, mas encontra-se em degradação e já não pode ser renovado. O governo mostrou disponibilidade para apoiar a mudança de instalações e vamos transferir-nos para uma nova localização, mais central. O espaço terá o nome “WA Portuguese Culture Center”, o que considero maravilhoso.

Este centro contará com jogos de futebol, o que acreditamos que vai atrair uma geração mais jovem, sobretudo homens, e também preservará alguma da mobília do tempo do meu pai, para manter viva a memória desses tempos. A ideia é transformá-lo num verdadeiro centro cultural português, algo que considero absolutamente necessário.

Na cidade de Perth, capital da Austrália Ocidental, sente-se a falta de um espaço verdadeiramente ligado à cultura portuguesa. Em Sidney, por exemplo, ouve-se frequentemente falar português e existem vários restaurantes com gastronomia lusa – algo que falta em Perth.

Acredito que, com a abertura deste centro, o interesse pela cultura portuguesa vai crescer, tanto entre os portugueses locais como entre australianos. Além disso, a transmissão de jogos de futebol português será certamente uma mais-valia para atrair público. O desafio passa por criar condições para que as gerações mais novas frequentem o espaço de forma regular, e esse é um dos meus principais objetivos.

Paralelamente, o nosso cônsul honorário, John da Silva, abriu recentemente uma livraria portuguesa no consulado, uma iniciativa muito relevante.

O que considera necessário para levar “mais Madeira” até à Austrália?

Acredito que a Madeira não precisa de ser “vendida”, porque quem a conhece já a adora. Contudo, penso que devia haver uma maior promoção da ilha, uma vez que Portugal aposta sobretudo em destinos como Lisboa, Porto ou Algarve. Apesar de a Madeira já ter bastante visibilidade nas redes sociais, continua a ter menos reconhecimento do que essas regiões.

A geração dos nossos pais está a desaparecer e a minha geração sente a responsabilidade de preservar o que ainda resta, porque se não o fizermos, corre-se o risco de tudo se perder.

Quando vivi na Madeira, em 1995, a vida era muito mais difícil. Sobrevivíamos com o que tínhamos, comíamos o que a minha avó colocava na mesa e demorávamos anos até conseguir ir da Madalena do Mar ao Funchal. Hoje, tudo é completamente diferente. Muitas pessoas da minha geração e da anterior guardam memórias duras desses tempos e não querem regressar, mesmo quando lhes digo que a ilha mudou radicalmente e está irreconhecível, evoluída como qualquer outro lugar moderno.

Na Austrália, manter vivas as tradições madeirenses e portuguesas ajuda a despertar a curiosidade sobre a Madeira. Mostrar a nossa gastronomia, partilhar fotografias e experiências é uma forma de atrair visitantes. Ainda há quem acredite que a Madeira não evoluiu, e cabe-nos contrariar essa perceção.

Quanto à introdução de produtos madeirenses na Austrália, trata-se de um desafio, devido às rígidas leis de segurança alimentar. No entanto, a minha mãe sempre manteve vivas as tradições: fazia mel de cana para o Natal, broas de mel, pão caseiro, espetadas, peixe grelhado – reproduzíamos a nossa cozinha portuguesa em casa. Mas, se as próximas gerações não aprenderem, estas tradições acabarão por desaparecer.

Por isso, acredito que é fundamental transmitir às gerações futuras tudo aquilo que sabemos antes que se perca. Estou comprometida em partilhar e promover a cultura madeirense e portuguesa, contando com um pequeno grupo de pessoas que partilha a mesma visão e dedicação. Juntos, faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para manter a Madeira viva na Austrália Ocidental.

Nota final:

‘Gostaria ainda de acrescentar que escrevi dois livros infantis: um para a Junta de Freguesia da Madalena do Mar e outro para a escola primária local. Um é inspirado na minha avó Constantina, da Madalena do Mar, e o outro no meu pai e na sua carreira de futebol. Um dos livros já foi traduzido para português e o outro encontra-se em fase de tradução.’

Visite o site: www.belindacipriano.com

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