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SANTA’Curtas

07-07-2023
MAG
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Tivemos a honra de entrevistar Pedro Pão, programador cultural do Festival ‘SANTACurtas’ e responsável pelo ‘Screenings Funchal‘.

  • O que é o SANTACurtas?

O SANTACurtas é uma reinterpretação contemporânea de uma mostra de cinema que ocorria nos anos 90 na Casa da Cultura/ Quinta do Revoredo, em Santa Cruz, na Ilha da Madeira.

Atualmente focada no formato de exibição de curtas-metragens ao ar livre, cada sessão tem a duração aproximada de uma hora e decorre no seu belíssimo anfiteatro sobre o mar, todas as sextas-feiras de Agosto às 21:30. É um evento de entrada livre e concebido para ser desfrutado em família ou entre amigos, não havendo idade mínima para aceder às sessões. De forma a ser o mais abrangente possível, todas as curtas-metragens em língua estrangeira são exibidas com legendagem em língua portuguesa. É pertinente também destacar que o evento não se restringe ao cinema, e que com a com a direcção técnica do Prof. Emanuel Gaspar e com o apoio da restante equipa da Casa da Cultura, são apresentados também outros espetáculos (ex. música ou dança) antecedendo as curtas exibidas.

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  • Qual a importância deste festival para o concelho Santa-cruzense e para a ilha da Madeira no geral?

Acho que este tipo de evento, particularmente ao ar-livre, num espaço tão agradável como este são importantes por inúmeras razões. Não se trata apenas de uma importante dinamização cultural focada no cinema, mas é em simultâneo uma importante valorização de património e sendo adequado a famílias e a qualquer faixa etária é também um incentivo louvável ao debate e reflexão em conjunto sobre as obras exibidas. Com todas estas características creio ser caso único na nossa ilha o que faz com que ganhe uma dimensão ainda maior.  Estes eventos não se devem limitar à cidade do Funchal e acho que este evento não só tem a capacidade de mobilizar a população local como também mobiliza espectadores de outros municípios.

  • Quantas curta-metragens serão exibidas nesta edição? De que países chegam?

Para esta edição temos 21 curtas oriundas de 11 países: Alemanha, Brasil, Coreia do Sul, Estados Unidos da América, França, Grécia, Noruega, Palestina, Portugal, Reino Unido e República Checa.

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  • Como define a programação cultural e o trabalho de um programador?

O trabalho de um programador de cinema é complexo e não acredito ser de fácil definição, se é que eventualmente terá uma só definição. A meu ver, este trabalho visa a criação de uma experiência cinematográfica enriquecedora, e a programação consiste na seleção criteriosa de filmes, que pretende oferecer uma programação diversificada e que suscite interesse e idealmente discussão (entre os espectadores ou com eles próprios). É um trabalho que requer pesquisa e acompanhamento acerca dos lançamentos a nível nacional e internacional e que acaba por resultar numa amostra demasiado grande, pois anualmente produzem-se milhares de obras de qualidade. Mas a partir daí, e pensando nas temáticas e géneros cinematográficos idealizados para determinada programação, tendo em conta sempre o público-alvo e o espaço envolvente, começa-se a trabalhar para restringir as possibilidades procurando seguir uma linha coerente ao longo da programação. É importante perceber as preferências do público, mas, na minha opinião, deve-se evitar que a programação esteja acorrentada a isso. Muitas vezes o público gosta de determinadas coisas porque nunca viu outras diferentes. E isso geralmente deve-se à dificuldade em aceder a conteúdos que não sigam certas regras ditas “comerciais”. Um programador deve ter um conhecimento mais abrangente e variado do que o espectador comum, e deverá ser a sua função apresentar algo novo que de alguma forma estimule o espectador. Acho que programação, seja do que for, se não for elaborada a pensar em mostrar algo que dificilmente já tenha sido visto pelo seu público é uma programação que falha num ponto que para mim é talvez o essencial da programação e aquele potencialmente terá maior impacto no espectador. Corre-se sempre o risco de determinada curta não correr bem e das pessoas não gostarem, mas isso também faz parte do trabalho de programação (e do papel do espectador). E por não ter sido bem assimiladas na sessão, não quer dizer que essa obra não acompanhe o espectador e que no futuro, sendo novamente expostas a linguagens cinematográficas menos convencionais, não lhes seja útil.

Outra forma de limitar as obras escolhidas também se prende muitas vezes com os direitos de exibição e os custos associados. Tudo isto tem custos altamente variáveis, e cabe ao programador definir o custo máximo para cada curta (dentro do orçamento geral da iniciativa) e quando for necessário, decidir onde é importante fazer a excepção a essa regra.

O contacto com os realizadores potencialmente convidados do evento, também faz parte desse trabalho e é importante na medida de não só apurar a sua disponibilidade, mas também perceber se serão a pessoa certa para uma interação com o público-alvo.

A legendagem pode ou não ser necessária, mas na maioria das vezes as curtas-metragens em língua estrangeira requerem trabalhos de tradução e legendagem.

Depois temos o trabalho menos divertido que requer recolher informações detalhadas sobre as obras e autores para serem preparados materiais promocionais e de divulgação. É claro que este trabalho varia imenso tendo em conta a restante equipa. Felizmente neste caso em particular, graças à incansável equipa da Casa da Cultura, existem várias vertentes do evento com as quais não preciso de me preocupar e que facilitam imenso o meu trabalho por me permitir focar mais concretamente na programação. Infelizmente nem sempre é assim.

Chegando às sessões, o trabalho do programador não está acabado. Mesmo durante o evento creio ser importante o programador estar atento às reações do público perante certas obras e certos conteúdos das obras exibidas. Particularmente em sessões ao ar livre o público reage de forma muito descontraída seja para demonstrar agrado ou desagrado, e acho importante estar presente a fazer essa leitura, recolher alguns feedbacks e tentar ampliar os conhecimentos acerca este público-alvo sempre em constante mutação. O ideal é que os espectadores quando se levantarem, regressem a casa com preferências distintas de quando se sentaram. Acho que o sucesso de uma programação depende essencialmente disso.

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  • Como é feita a seleção das curta-metragens que são exibidas no Festival?

Seguindo as diretrizes descritas anteriormente. Há sempre uma tentativa para que seja exibido um pouco de tudo. Curtas que se destacaram recentemente no panorama nacional e internacional, estreias na realização de autores promissores e também o resgate ao esquecimento de alguns trabalhos de autores importantes da história do cinema. O ano passado foi Chris Marker, e este ano teremos uma curta-metragem de Jean-Luc Godard. Dou também sempre algum destaque ao que é feito em Portugal e nesta edição das 21 curtas exibidas, cinco são portuguesas. Em cada sessão será exibida pelo menos uma curta-metragem portuguesa. Obras que infelizmente não são distribuídas nem exibidas nos circuitos tradicionais de cinema em Portugal.

 Esta diversidade parece-me essencial para um evento abrangente, apelativo e enriquecedor. As curtas passarão por vários géneros, da comédia ao experimental. Temos alguns trabalhos muito divertidos apesar de abordarem temas sérios, outros que abordam assuntos sérios de forma mais séria, mas reflexões que a programação suscite à parte, tentei que fosse uma edição essencialmente divertida.

  • Que impacto o Festival pode ter nos jovens do concelho que aspiram a se expressar na produção audiovisual ou áreas semelhantes?

A produção de curtas-metragens tem crescido nos últimos anos em parte devido à facilidade de acesso a equipamentos de filmagem e à criação de inúmeras plataformas online para distribuição. Felizmente, hoje em dia não são necessários investimentos avultados para fazer uma curta metragem e isto tem permitido que realizadores independentes tenham a oportunidade de criar e divulgar as suas obras com maior facilidade. Acho e espero que a variedade que procuro incluir na programação tenha precisamente o efeito de mostrar a riqueza não só do que é feito, mas do que pode ser feito. E que através dessa perspectiva se incentive à criação e expressão artística dentro deste e outros formatos. É também nesse sentido que o SANTACurtas desde a sua génese procura facilitar o contacto entre o público e os criadores através do convite a realizadores que vêm apresentar as suas obras e conversar com o público.

  • Para quem ainda não conhece este festival, o que é que há por descobrir nele?

Quem ainda não conhece pode e deve vir descobrir o que andou a perder. São quatro noites em Agosto muito bem passadas ao pé do mar, num equilíbrio saudável entre diversão e reflexão através da exibição de um conjunto de obras muito particular e diversificada. Algumas delas seriam muito difíceis de conseguir ver de outra forma.

Além disto haverá a oportunidade de conviver de perto com os realizadores convidados, que com a sua presença e abertura ao diálogo no final da sessão têm o potencial de enriquecer a experiência ao desconstruir para o público o processo de criação e sugerindo formas de interpretação.

  • Que importância deve ter a cultura na nossa sociedade atual?

Eu gostaria que ela já tivesse a importância suficiente para que não fosse necessário colocar nem responder a esta questão. Acho que devia ser menos vista como uma oportunidade de desenvolvimento económico e/ou turístico apesar desta vertente ter a sua importância, e ser vista acima de tudo como uma expressão de identidade, valores e tradições que contribui para o nosso enriquecimento individual e colectivo. Todas as manifestações culturais têm a mais variada importância na nossa sociedade, seja no desenvolvimento da criatividade, imaginação e espírito crítico, como na promoção do diálogo, da diversidade e da inclusão. A cultura é também uma importante ferramenta pedagógica com potencial inestimável que pode ser utilizada de forma interdisciplinar e transversalmente por todas as faixas etárias. Acho muito resumidamente que a cultura deve ser vista como um elemento indissociável ao progresso de uma sociedade e que devem ser feitos esforços para minimizar os desafios e obstáculos que a cultura enfrenta na sociedade atual garantindo o acesso e participação cultural a todos.

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