Teatro do Bolo do Caco
Entrevista com Xavier Miguel
No Dia Mundial do Teatro, celebrado a 27 de março, entrevistámos um dos projetos culturais mais relevantes no panorama madeirense, que retrata a sua génese, elevando-a internacionalmente.
- Quem são o Teatro do bolo do Caco?
O Teatro Bolo do Caco começou por ser um projeto liderado por mim (Xavier Miguel) em 2011, tendo reunido um grupo de interessados e apaixonados pelo teatro de forma a poder explorar o teatro e, pouco a pouco, a dramaturgia madeirense (teatro escrito por autores madeirenses). Fomos apresentando o nosso trabalho cada vez mais na rua, e cada vez menos em palcos ditos "convencionais", além da exploração de espaços devolutos e casas velhas, em parceria com o projeto Espaço 116, que surgiu paralelamente. Desde 2015 começamos a definir o nosso foco de ação no Novo Circo, no Teatro de Rua, e na Animação Temática, mesclando as três linguagens, e levando-as a todos os públicos através de peças, espetáculos e atuações um pouco por toda a região. Em 2018, com uma equipa progressivamente maior, contando então com a forte presença de Cristiana Nunes, Mariana Faria e Diogo Gonçalves, formamos a Associação Teatro Bolo do Caco. A partir de 2020 entramos no mundo das estátuas vivas, área que temos vindo a explorar em paralelo com os restantes trabalhos, e no âmbito do qual pudemos participar no Festival internacional Beeldig Lommel no ano passado, levando a cultura e a arte de rua madeirense à Bélgica com a Família Madeirense.
- Qual a origem/inspiração para o nome do grupo?
Na altura em que estávamos a dar os primeiros passos como grupo tive oportunidade de conhecer e colaborar em alguns eventos com o escritor madeirense José Viale Moutinho, de quem era já leitor, e de quem me tornei amigo. Em novembro de 2011, quando íamos estrear a nossa primeira peça, pedi-lhe que nos desse umas sugestões de nomes para o grupo, ao que surgiu o Bolo do Caco, entre diversas outras. E porque escolhemos essa, entre tantas outras? Por três simples razões: é madeirense e regional, é popular e "não precisa de manual de instruções para se entender", além disso, é um nome com personalidade.
- Que projetos artísticos gostam de apresentar? Como reage o público às vossas performances?
O trabalho artístico do Teatro Bolo do Caco é criado e pensado para um público nos seus mais diversos contextos: o ilhéu e, eventualmente, o turista que estando na nossa terra entende só por isso mais facilmente os códigos artísticos insulares que desenvolvemos no nosso trabalho. As nossas linhas orientadoras são a exploração das Artes e Cultura Madeirenses, nesse sentido, procuramos recriar tradições e explorar, de uma forma artística, o ser insular, e de que forma isso se traduz nas artes circenses, na recriação histórica, no novo circo/circo contemporâneo e nas estátuas vivas. As reações do público são sempre diversas e diferem conforme o contexto. Por exemplo, com os Primos Mangericos, personagens de animação teatral que improvisam quadras nas festas populares, levamos pessoas a rir e a ficar coradas. Quando apresentamos algo visualmente impactante, como alguns momentos de artes circenses ou com a magia das estátuas vivas, vemos reações de espanto e surpresa. Por outro lado, com a peça Avozinhas e Bordados, um espetáculo de teatro físico em homenagem às bordadeiras, terminamos o espetáculo a ouvir pessoas do público a chorar.
- Já fizeram várias participações internacionais em vários eventos, quais foram as mais marcantes? E a nível regional?
Temos dois pontos a destacar no nosso percurso: organizamos em 2019 o Festival de Teatro de Rua do Funchal, em parceria com a Fundação INATEL e com a CMF; e em 2020, num projeto do Madeira Street Arts Festival tornamo-nos no primeiro grupo madeirense a criar e fazer estátuas vivas, estreando a primeira estátua viva regional In Vino Veritas. O nosso trabalho vive na vontade dos madeirenses e nos espaços que nos deram, tantas e quantas vezes for possível.