Exposição "Onde A LÃ vive" no Museu Etnográfico da Madeira
Entre os dias 17 de outubro a 1 de março de 2025, a exposição "Onde A LÃ vive" pode ser visitada no Museu Etnográfico da Madeira.
O objetivo da exposição é apresentar a lã, matéria-prima regional, ao longo de todo o seu ciclo, desde o pastoreio até a sua transformação em objeto, destacando a sua ligação com a natureza e o papel fundamental do homem neste processo.
A exposição abrange a jornada da lã, desde o mundo vegetal e animal até à sua integração na cultura.
A entrada é gratuita.
“Onde A LÃ Vive” é uma exposição temporária, que se insere num projeto mais vasto, que tem sido desenvolvido, nos últimos anos, pelo Museu Etnográfico da Madeira, o qual, para além do projeto expositivo, procura contemplar outras vertentes de divulgação cultural.
Geralmente, trata-se de um trabalho de investigação e divulgação apenas da responsabilidade dos técnicos da equipa do museu, mas, em alguns anos, temos procurado, igualmente, estabelecer parcerias com outras instituições ou privados e envolver a comunidade.
Este ano, o projeto resultou de uma parceria com o COLETIVO ENFIA O BARRETE (Irina Andrusko e Luz Ornelas) e teve, ainda, a colaboração da autora Rafaela Rodrigues.
Para além da exposição temporária inclui:
- Um projeto editorial, este ano, o Nº 8 da Coleção CADERNOS DE CAMPO, livro/catálogo, que é lançado posteriormente e que contextualiza e desenvolve, de forma mais profunda, a exposição, ponto de partida deste projeto;
- Um vídeo, exibido durante a exposição e divulgado online e que será o Nº4, da nossa série de documentários “MUSEUS VIVOS”, com produção, realização e montagem de Rui Dantas;
- Várias oficinas práticas, promovidas por especialistas ou artífices em parceria com os serviços educativos do museu, durante o período de exibição da exposição;
- Em 2024 contemplará, ainda, a apresentação pública do livro infantojuvenil de Rafaela Rodrigues, “A fiandeira”, um complemento importante, no que toca à mediação cultural
A Exposição é o resultado da recolha e estudo prático à volta de dois rebanhos em regime silvipastoril (ACGSP), duas fiandeiras de lã, Isabel da Eira e Isabel Ferreira e o repertório de tricot/malhas.
Tem como objetivo dar a conhecer a lã, uma matéria-prima regional, ao longo do seu ciclo completo, desde a pastagem até à sua transformação em objeto, destacando a sua ligação à natureza e o papel fundamental do homem neste processo. O percurso expositivo abrange o trajeto da lã, desde o mundo vegetal e animal até à sua integração na cultura.
Ao reconhecer este património e afirmar o seu valor, a exposição propõe uma interpretação contemporânea da lã e das tradições a ela associadas, recorrendo a experiências artísticas. O percurso recriado no espaço museológico procura compreender o que já existia na Região Autónoma da Madeira, o que ainda persiste e o que poderá surgir no futuro, tendo sempre em consideração a realidade atual. Trata-se de um encontro íntimo entre o visitante e a lã.
Esta exposição não abrange toda a produção de lã na Madeira, nem todo o património cultural a ela associado, e não se configura como um estudo exaustivo.
E exposição encontra-se dividida em dois espaços. No primeiro, que intitulámos, genericamente de “Arquétipo”, convidamos o público a fazer uma viagem, que começa no barrete de orelhas, uma peça emblemática da ilha da Madeira que, na sua forma atual, remonta ao século XIX. Feito com lã de ovelha regional e utilizando a técnica de tricot, o barrete é um testemunho da História do povo, do seu quotidiano, desafios, valores, cultura e saber-fazer. Este espaço resultou da pesquisa dedicada à origem histórica, remetendo-se para a forma original do barrete.
No percurso efetuado, o barrete de orelhas leva-nos às grandes tosquias públicas, que ocorrem na Madeira, no Perímetro Florestal das Serras do Poiso, organizadas pelo Instituto das Florestas e Conservação da Natureza (IFCN) e pela Associação dos Criadores do Gado das Serras do Poiso (ACGSP). A tosquia é celebrada como um verdadeiro arraial. O percurso passa pelas casas de várias mulheres, que ainda trabalham a lã, em diversas localidades, com especial destaque para as fiandeiras e artífices de peças de tricot, que estão ligadas à pastorícia e localizam-se nas áreas adjacentes ao Poiso. Neste caminho, encontramos muitos objetos, artefactos e processos caraterísticos da ilha.
A introdução de gado ovino ocorreu na época da povoação da ilha, tornando natural o aproveitamento da lã. Em todas as casas, a lã teve o seu sábio aproveitamento: as almofadas e as colchas eram cheias com lã, o velo usado no berço e eram confecionadas peças de bragal, como cobertores ou tapetes tecidos, ou de traje, como as saias, as calças, os barretes ou casacos. A lã continua a ter presença nos grupos folclóricos da ilha e no seu vestuário.
Hoje, a lã das ovelhas da serra não é comercializada, mas continua a existir gado ovino, sem raça definida, conhecidas como “as nossas”, “as pequenas”, “as da terra” ou “as Marias” carregando, não só o peso do seu casaco, mas também memórias, costumes, tradições e o saber-fazer do povo.
No segundo espaço, o “Protótipo”, apresentamos um estudo prático sobre a lã das ovelhas locais. Foi levado a cabo nos anos de 2023 e 2024, e teve como alvo as ovelhas que pastam em regime silvipastoril, dois rebanhos da Associação dos Criadores do Gado das Serras do Poiso, totalizando cerca de 1000 cabeças. Cada rebanho tem o seu próprio dia de tosquia, que ocorre uma vez por ano, em junho. A lã é recolhida durante as tosquias, mas a maior parte acaba por não ser aproveitada sendo, apenas, parcialmente utilizada pelas artesãs da ilha.
O objetivo central do estudo foi encontrar soluções práticas para evitar o desperdício da lã. Esta fase, experimental, visa testar o potencial da lã das ovelhas que pastam em regime silvipastoril. Trata-se de um recurso natural e biodegradável, que se regenera todos os anos e pode vir a integrar as pastagens regenerativas e a economia circular.
Nesse sentido, a lã foi utilizada como meio de aprendizagem para crianças e adultos. Foi experimentada a sua aplicação na agricultura (como cobertura, fertilizante e compostagem), procedeu-se a uma demonstração do ciclo da lã, aos alunos das escolas primárias do Campanário e houve uma colaboração em atividades relacionadas com a sustentabilidade na Região, sendo esta lã utilizada para abordar temas ambientais. As atividades foram realizadas no Espaço do Artesão, da Câmara Municipal da Ribeira Brava, onde o coletivo esteve a realizar residência artística para preparação da presente exposição.
O estudo baseou-se em trabalho de campo, junto de criadores de ovelhas e artesãos, para entender melhor o processamento tradicional da lã. Houve a aprendizagem com especialistas na área e foi criada uma fusão das técnicas tradicionais com algumas ferramentas e métodos modernos.
Rosa Pomar (Lisboa), investigadora das lãs portuguesas, participou no projeto, de forma a contextualizar a lã da Madeira no âmbito nacional, analisando os métodos tradicionais de processamento e comparando-os com a realidade em Portugal Continental. Para tal, desenvolveu-se uma fase preparatória, intitulada “Velo”, que teve início com a tosquia de 2023 e foi financiada pela Secretaria do Turismo e Cultura, através do museu e apoiada pela Câmara Municipal da Ribeira Brava.
Este espaço representa uma série de protótipos e uma interpretação artística, tentando mostrar o potencial aproveitamento da lã das ovelhas, do Perímetro Florestal das Serras do Poiso, desde a sua utilização no mobiliário até ao vestuário. Todos os protótipos e amostras foram produzidos a partir da lã regional.
FICHA TÉCNICA
CURADORIA: Irina Andrusko | Lídia Góes Ferreira
PROJETO MUSEOGRÁFICO: Irina Andrusko | Lídia Góes Ferreira | Márcio Ribeiro |Rafaela Rodrigues
DESIGN GRÁFICO: Márcio Ribeiro (DRC)
INVESTIGAÇÃO ICONOGRÁFICA E BIBLIOGRÁFICA: César Ferreira, Lídia Góes Ferreira (MEM); Irina Andrusko, Luz Ornelas (COLETIVO ENFIA O BARRETE)
INVESTIGAÇÃO DE CAMPO: Ágata Xavier; Florêncio Pereira, César Ferreira (MEM); Irina Andrusko, Luz Ornelas (COLETIVO ENFIA O BARRETE); Rafaela Rodrigues; Rosa Pomar
TEXTOS: Irina Andrusko
TRADUÇÃO: Cláudia Noronha
REVISÃO DE TEXTOS: Dalila Fernandes, Lídia Góes Ferreira
FOTOGRAFIA: Ágata Xavier; António Aragão e Artur Andrade, Gabinete de Defesa e Dinamização do Património da Região, Secretaria Regional da Educação e Cultura; Artur Pastor, Arquivo Municipal de Lisboa; Florêncio Pereira, MEM; Irina Andrusko; Magno Bettencourt (Coletivo “Enfia o Barrete”); Jorge Freitas Branco, Gabinete de Defesa e Dinamização do Património da Região, Secretaria Regional da Educação e Cultura; Museu da Fotografia da Madeira, Atelier Vicente, em depósito no ABM
VÍDEO: Produção, Realização e Montagem: Rui Dantas
INSTALAÇÃO ARTÍSTICA: Joana Freitas (Aura)
MONTAGEM: Fernando Libano, Florêncio Pereira, João Carlos Terra-Boa (MEM) e equipa do Coletivo Enfia o Barrete
MEDIAÇÃO CULTURAL: Nélia Reis, Rafaela Rodrigues e Coletivo Enfia o Barrete